A Pílula Errada: Djamila Ribeiro desmascara a “Matrix” da machosfera
Em sua coluna desta semana na Folha de S.Paulo, Djamila Ribeiro analisa como o chamado movimento “red pill” distorce o sentido original de despertar crítico para lucrar com a frustração de jovens no ambiente virtual. Ela postou um vídeo no Instagram, desdobrando o tema.
A partir do documentário Por Dentro da Machosfera, do jornalista britânico Louis Theroux, a filósofa brasileira expõe a lógica de um ecossistema digital que mobiliza homens por meio de promessas de poder, riqueza e dominação. Djamila aponta que essa narrativa se sustenta em uma estética de ostentação que encobre práticas econômicas fraudulentas. O resultado é a conversão da vulnerabilidade — financeira e emocional — em lucro.
Nesse circuito, o ódio às mulheres funciona como mecanismo de captura. Ele serve de isca para a venda de apostas online, criptomoedas e o agenciamento de conteúdo adulto, explorando as mesmas mulheres que esses influenciadores afirmam desprezar. A contradição, longe de periférica, estrutura o próprio modelo de negócio.
A pílula errada
O ponto central da coluna está na disputa simbólica em torno da metáfora da “red pill”, popularizada no primeiro filme da trilogia Matrix (dirigidos e escritos pelas irmãs Lana Wachowski e Lilly Wachowski).
Recuperando a leitura da filósofa Marilena Chauí, Djamila lembra que “matrix” deriva de mater, palavra latina para “mãe”, originalmente associada ao útero — espaço de geração da vida. No filme, a escolha entre a pílula azul e a vermelha representa, respectivamente, a permanência na ilusão ou o acesso à consciência crítica.
A apropriação feita pela machosfera, porém, opera uma inversão. O que no filme é um convite ao despertar político se transforma, no universo digital, em justificativa para a dominação masculina. Ao reinterpretar esse deslocamento, a autora de Lugar de Fala propõe uma inflexão conceitual: o movimento “red pill” se comporta, na prática, como uma “blue pill”, isto é, uma escolha deliberada pela ilusão confortável — marcada por riqueza encenada, poder fantasioso e misoginia naturalizada.
Em sua análise, a autora recupera personagens femininas frequentemente apagadas nas leituras dominantes de Matrix. A Oráculo, mulher negra que orienta o protagonista, e Trinity, liderança estratégica da resistência, evidenciam que o enredo original não sustenta a centralidade masculina reivindicada pela machosfera.
Ao ignorar essas figuras, o movimento reforça a exclusão de vozes que desestabilizam hierarquias:
“O movimento da machosfera se apropriou do significado da pílula vermelha para defender a dominação masculina, convertendo um convite ao despertar político em mais uma justificativa para práticas misóginas”, escreve Djamila.
A filósofa também destaca o arco narrativo de Cypher, personagem cuja traição à resistência expressa o desejo de retorno à ilusão:
“Mais do que isso, ele deseja deliberadamente voltar à Matrix. Ele preferia viver numa ilusão confortável, rico, importante e cercado de mulheres sexualmente disponíveis, a enfrentar a realidade fora das máquinas. Cypher queria a Blue Pill.”
As semelhanças com o universo da machosfera, observa, não são casuais:
“As semelhanças entre o personagem e o universo da machosfera chamam a atenção. Falta apenas eles abrirem um canal no YouTube chamado ‘Patrix’, onde passariam o dia vendendo bet e reclamando de tudo aquilo que eles não tiveram por culpa de Trinity.”
Ao monopolizar narrativas sobre masculinidade e poder, esses influenciadores não apenas distorcem símbolos culturais, mas restringem o próprio campo de interpretação.
Enquanto prometem revelar verdades ocultas, operam, na prática, como mecanismos de manutenção de ilusões. Reconhecer essa inversão é parte de um processo mais amplo de responsabilização — individual e coletiva — diante de estruturas que lucram com a desigualdade.
O diálogo com o Senado: o crime de misoginia
A análise dialoga diretamente com a resposta institucional recente do Estado brasileiro. O Projeto de Lei 896/2023, aprovado nesta semana pelo Senado, inclui a misoginia entre os crimes de preconceito ou discriminação (previstos na Lei do Racismo no Brasil), com pena de dois a cinco anos de prisão.
Assim como no debate racial — no qual o racismo deve ser compreendido como estrutura e não apenas como ato individual —, a misoginia ultrapassa comportamentos isolados. Trata-se de uma engrenagem que envolve economia, linguagem e representação.
Definir juridicamente a prática como “ódio ou aversão às mulheres” desloca o debate do campo simbólico para o institucional, estabelecendo parâmetros concretos de responsabilização.
Confira a coluna: Na machosfera, a frustração sexual de jovens é capturada e manipulada
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