
Djamila Ribeiro critica falsa simetria no jornalismo em debates sobre violência contra mulheres: “Dar palco à desinformação é um problema”
Filósofa brasileira defende confronto imediato a dados falsos e alerta para a lógica das redes, que transforma indignação em publicidade gratuita.
Em vídeo publicado nas redes sociais, Djamila Ribeiro criticou a falsa simetria em debates jornalísticos sobre violência contra mulheres e misoginia. O pano de fundo para o post foi a participação da psicanalista Vera Iaconelli e do ator Juliano Cazarré em um programa da GloboNews, na semana passada. Djamila ressaltou que o problema não está em convidar pessoas com posições diferentes para uma conversa pública, e sim em colocar no mesmo plano argumentos fundamentados e afirmações falsas. Ela citou como exemplo a afirmação feita por Cazarré de que, no Brasil, mulheres matam mais homens do que homens matam mulheres.
“Eu não acho que é um problema quando a mídia convida pessoas que pensam de maneira diferente para debater. Faz parte da história do pensamento crítico, vivemos numa democracia”, apontou. “O problema é quando a gente quer equiparar duas pessoas: uma que traz argumentos válidos e a outra que traz desinformação e argumentos falaciosos.”
A fala do ator da Globo foi registrada também pela Folha de S.Paulo e repercutiu em outros veículos como exemplo de falsa equivalência entre homicídios de homens e feminicídios, crime específico cometido contra mulheres pelo fato de serem mulheres.
“A partir do momento em que uma pessoa traz um dado falacioso, ele precisa ser confrontado imediatamente, senão o jornalismo está contribuindo para a disseminação de desinformação”, disse a professora convidada do MIT.
Djamila lembrou que, no caso da violência de gênero, esse tipo de retórica apaga a dimensão histórica e estrutural da violência contra as mulheres. Dados recentes reforçam a gravidade do tema. Segundo levantamento divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e repercutido pela Procuradoria Especial da Mulher do Senado, o Brasil registrou 1.568 feminicídios em 2025, maior número desde que o crime passou a ser tipificado no país, em 2015. O total representa alta de 4,7% em relação ao ano anterior.
O 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, com dados de 2024, já havia apontado 1.492 mulheres assassinadas apenas por serem mulheres, além de 3.870 tentativas de feminicídio. O levantamento também mostra que 8 em cada 10 vítimas foram mortas por companheiro ou ex-companheiro, 64% eram negras e 64% foram assassinadas dentro de casa.
No vídeo publicado em seu Instagram, Djamila também criticou a dinâmica das redes sociais, em que respostas indignadas a figuras tidas como polêmicas podem, contraditoriamente, ampliar o alcance das ideias que se pretende combater. Nas palavras da filósofa brasileira, quando celebridades e páginas de fofoca transformam o embate em espetáculo, o resultado pode ser mais visibilidade para discursos preconceituosos que já têm espaço e que se retroalimentam de likes.
“Ficam atores e atrizes famosos se digladiando, em vez de, por exemplo, visibilizar o trabalho de tantas mulheres incríveis que estão aí trabalhando, enfrentando e trazendo ações concretas de enfrentamento à violência contra as mulheres”, sublinhou Djamila.
A filósofa defende que a resposta à misoginia e à desinformação não deve se limitar à reação instantânea nas redes. Deve, pelo contrário, se desdobrar em iniciativas formativas para o pensamento crítico.
“Tem um curso meu gratuito, no YouTube do Instituto Feminismos Plurais (LINK), chamado Jornalismo Contra-Hegemônico, em que uma das aulas é sobre desinformação. Convido vocês a participarem”, reforçou.
Djamila também destacou seu mais novo curso: Pensamento Red Pill, voltado ao enfrentamento de narrativas misóginas e já contratado por pessoas físicas, coletivos, escolas públicas, comunidades quilombolas e grupos de diferentes regiões do país.
cujas inscrições já estavam encerradas. As duas ações aparecem em sua fala como alternativas à lógica das redes, que muitas vezes transforma discursos falaciosos em espetáculo e publicidade gratuita. A primeira fase de inscrições estão encerradas e a iniciativa tem data de estreia marcada para o final de maio.
“É um curso que tem um custo absolutamente simbólico, com um material didático que pode ser retransmitido. Porque é isso. Encontrei uma maneira de contribuir coletivamente e de uma maneira acessível para enfrentar essa realidade, em vez de ficar usando a minha plataforma para dar publicidade a narrativas sem qualquer embasamento na realidade. Um grande dilema que a gente enfrenta nessa ‘guerra por likes’ nas redes sociais é esse: as pessoas estão dando palco para mentiras e para desinformação.”
Ao agradecer às pessoas inscritas, Djamila assinalou a presença de grupos comprometidos com ações concretas: o Coletivo de Mulheres Negras do Oiapoque, a Associação Paulista de Magistrados (Apamagis), escolas públicas de Irecê, na Bahia, quilombolas e escolas do interior da Paraíba.
Confrontar dados falsos, evitar a falsa simetria e dar visibilidade a ações de enfrentamento são caminhos mais efetivos do que transformar discursos de ódio em espetáculo permanente.
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