Bienal do Livro de Brasília: Djamila Ribeiro transforma lançamento da nova edição de ‘Lugar de Fala’ em verdadeira aula sobre letramento racial e desafios do mercado editorial

Redação

23 de agosto de 2026

A filósofa brasileira defendeu a educação antirracista como tarefa de todos os educadores, contou os bastidores dos anos à frente da Coleção Feminismos Plurais, agora na Editora Record, e revelou como nasceu o prefácio assinado por Chimamanda Ngozi Adichie

Diante de uma plateia que encheu o espaço externo do Museu Nacional da República, em Brasília, Djamila Ribeiro apresentou a edição ampliada e revista de Lugar de Fala, publicada em junho pela Rosa dos Tempos, do Grupo Record. Nove anos após a chegada da primeira edição, a nova versão da obra vem percorrendo o país, com lançamentos que já passaram por São Paulo, Santos, Belo Horizonte, Paraty e Rio de Janeiro.

O novo volume é significativamente maior que o original. A parte inicial foi mantida com revisões e atualizações, enquanto uma segunda seção, inteiramente inédita, foi acrescentada. A ampliação nasceu da necessidade de examinar como o conceito circulou ao longo desses nove anos — período em que ganhou projeção, mas também foi alvo de simplificações, esvaziamentos e interpretações equivocadas.

Na capital federal, a conversa com o público se transformou em uma verdadeira aula da professora Djamila. A primeira pergunta trazida pela mediadora da noite, Ana Helena Rossi, docente do curso de Letras da UnB, abriu caminho para que a autora falasse sobre a importância do letramento racial no Brasil.

 

Ao falar de educação antirracista, ela retomou uma das contradições que marcam a formação social brasileira: a construção do racismo acompanhada pela negação de sua própria existência. Último país das Américas a abolir a escravidão, o Brasil ergueu sobre esse passado o mito da democracia racial.

“Isso dificultou muito o nosso entendimento sobre o que é a estrutura racista no nosso país. Então, é muito importante a gente estudar a questão racial, não apenas pela perspectiva da opressão, que foi negada durante muito tempo, mas também incorporando aos currículos bibliografias e produções intelectuais de pessoas negras. E não necessariamente obras que tratem especificamente da questão racial. Um livro de autoria negra não precisa abordar esse tema. Temos autores negros em diversas áreas, falando de biologia, matemática — tenho uma filha que hoje estuda matemática — e de tantos outros campos. Isso também ajuda a romper com essa imagem de nos colocar em caixinhas, como se só pudéssemos falar de determinados assuntos”, afirmou.

Djamila destacou a importância da Lei 10.639, de 2003, que tornou obrigatório o ensino de história e cultura africana e afro-brasileira nas escolas, mas alertou para a necessidade de vigilância permanente.

“No nosso país, infelizmente, as políticas são de governo, e não de Estado. Por isso, às vezes a gente avança em um governo e retrocede no seguinte. E assim permanece a dificuldade de consolidar políticas mais profundas e permanentes.”

O cumprimento da legislação, ressaltou, não pode ser atribuído apenas a professores negros ou a disciplinas tradicionalmente associadas ao debate racial. Em resposta a uma pergunta da plateia sobre o papel dos educadores brancos, ela foi direta:

“Todo mundo tem lugar de fala. É muito importante que os professores brancos compreendam que, se existe a Lei 10.639, ela deve ser aplicada por todos os educadores. Às vezes aparece esse argumento: ‘Ah, mas eu sou branco’, seguido de outra deturpação do conceito de lugar de fala: ‘Não é o meu lugar de fala’. Você vai falar, mas a partir de outro lugar. Se apenas professores negros tiverem a responsabilidade de aplicar uma educação antirracista, como isso vai funcionar, sendo nós uma minoria? Esse é um papel de todos os educadores”, explicou.

A autora acrescentou que, da mesma forma que autores brancos fizeram parte da formação escolar e acadêmica de diferentes gerações, o estudo das relações raciais e da produção intelectual negra precisa integrar o repertório de educadores e profissionais de todas as áreas.

“Assim como nós tivemos que estudar autores brancos europeus, pessoas brancas também precisam estudar a questão racial para aplicá-la em sala de aula e construir uma educação que, de fato, compreenda essa multiplicidade de vozes e de produções”, disse.

Essa formação, apontou, permite compreender de que maneira o racismo atravessa decisões aparentemente distantes do debate racial.

“Isso independe da disciplina que você leciona. Às vezes as pessoas me dizem: ‘Eu faço engenharia química. Por que preciso saber disso?’. Porque você vive em uma sociedade na qual o racismo estrutura as relações sociais. Imagine que você seja engenheiro e vá desenvolver, para uma empresa, um projeto em uma comunidade indígena. Se não conhece a história do Brasil, talvez não consiga compreender o impacto daquele trabalho sobre essa comunidade. Ou pense nos centros de dados de inteligência artificial, que consomem uma quantidade enorme de água e têm afetado o acesso de diversas comunidades a esse recurso. Claro que você precisa saber dessas questões, independentemente da área em que atua.”

A educação antirracista, portanto, não se resume às relações interpessoais ou à ideia de ensinar respeito às diferenças. Ela deve ser transversal.

“As pessoas ainda reduzem a educação antirracista a algo como ‘saber tratar bem o amiguinho negro’. Não é disso que estamos falando. Trata-se de compreender o seu papel e perceber que essa discussão atravessa todas as áreas. O problema é que a questão racial costuma ser tratada como um assunto específico. Por exemplo, se no Brasil a maior parte da população em situação de rua é negra, discutir habitação também é discutir raça. Isso não pode ficar restrito ao Ministério da Igualdade Racial, ainda mais com um orçamento limitado. Da mesma forma, se muitas mulheres não conseguem sair de relacionamentos abusivos porque não têm para onde ir, discutir habitação também é discutir a questão das mulheres”, ressaltou.

Para Djamila, o papel dos educadores brancos envolve justamente ampliar esse repertório, deixando de tratar raça e gênero como temas isolados ou periféricos.

“O papel do educador branco passa por se letrar e entender que não basta ler meia dúzia de autores negros. É preciso construir uma visão mais ampla sobre o que significa educação antirracista. Precisamos compreender, por exemplo, o impacto de hidrelétricas sobre comunidades indígenas. Isso também faz parte da discussão racial. Reduzir esse debate a uma questão meramente ‘identitária’ é justamente não compreender que estamos falando de estruturas”, afirmou.

Os desafios do mercado editorial

Primeiro título da Coleção Feminismos Plurais, Lugar de Fala foi publicado em 2017 pela editora Letramento e passou ao catálogo da Jandaíra em 2019. A coleção reúne 14 títulos assinados exclusivamente por autores e autoras negras.

A iniciativa foi ampliada com a criação do selo Sueli Carneiro, responsável por outras publicações voltadas à produção intelectual negra. Entre elas estão Mulheres Quilombolas: Territórios de Existências Negras Femininas, organizado por Selma Dealdina e composto por textos de 18 mulheres quilombolas; o infantil Betha, a Bailarina Pretinha, de Bethânia Nascimento, filha da historiadora Beatriz Nascimento; e a tradução de Black Power, de Charles Hamilton e Kwame Ture.

Entre 2017 e 2024, a coleção e o selo somaram 27 títulos lançados por uma estrutura editorial independente.

“Isso é muita coisa. Não foi fácil colocar esse projeto de pé. Tenho muito respeito pelo trabalho das editoras independentes no Brasil, porque sei das dificuldades que enfrentam. Nós seguimos até 2024, mas, naquele momento, eu já pensava em desistir, porque estava muito difícil manter o projeto, apesar do impacto que ele havia conquistado no país”, contou.

A criação da coleção respondeu também à desigualdade racial existente no mercado editorial. Na nova edição de Lugar de Fala, a filósofa recupera dados de uma pesquisa da Universidade de Brasília (UnB): até 2014, 90% dos livros publicados no Brasil eram escritos por pessoas brancas; dentro desse universo, 70% tinham autoria de homens brancos.

“A coleção surgiu em 2017 justamente nesse contexto. Não foi por acaso que decidimos publicar apenas autores e autoras negras. Era importante disputar essa narrativa e encontrar caminhos para entrar em um mercado tão fechado. Para isso, fui estudar o funcionamento do próprio mercado editorial: livrarias, repasses, distribuidoras, circulação. Precisava entender como uma editora independente, pequena e sem muitos recursos poderia fazer esses livros ultrapassarem determinados nichos. Eu não queria publicar obras para que elas permanecessem em uma espécie de gueto. Queria que fossem populares e alcançassem públicos diversos”, destacou.

O estudo do setor levou a uma inversão da lógica habitual de lançamento. Em vez de livrarias, que retêm de 30% a 40% do preço de capa, equipamentos públicos e centros comunitários. Os livros saíam a R$ 19,90, com frete grátis e venda direta.

“Isso também é tecnologia. Entender de que maneira a gente, sem dinheiro, numa editora pequena, vai furar esse bloqueio”, disse.

A proposta tinha uma dimensão explícita de acesso: construir ambientes em que o público se sentisse acolhido e reconhecesse aqueles eventos como espaços também destinados a ele.

“Criamos formas de aproximar o público. Uma delas era financiar exemplares para distribuição. A pessoa comprava cem livros, por exemplo, e nós entregávamos esses cem exemplares às primeiras pessoas que chegassem ao lançamento. Além disso, havia música, comida, encontros com outros autores. A ideia era romper com aquela imagem do lançamento de livro como um espaço fechado, sisudo, destinado a pessoas supostamente muito inteligentes. Queríamos criar um ambiente realmente convidativo. Isso também tinha a ver com acesso. Livrarias, universidades e determinados espaços culturais podem ser intimidadores para pessoas de alguns lugares sociais. Então queríamos que quem chegasse se sentisse bem-vindo”, contou.

Em 2024, a coleção passou à Editora Record. Dos 14 títulos originais, 10 seguem no novo catálogo, aos quais se somam três encomendas inéditas: Saúde Mental, Direitos Sexuais e Reprodutivos, e Transmasculinidade. Intolerância Religiosa, do professor e babalorixá Sidnei Nogueira, lançado na Flip 2026, inaugurou a nova fase.

De onde se fala

Entre as leituras equivocadas que a nova edição procura responder, a mais difundida é a de que o conceito funcionaria como mecanismo de interdição.

“Discutir lugar de fala é discutir poder. É perguntar por que, durante minha formação em filosofia, praticamente só me apresentaram o pensamento de homens brancos europeus. Por que não estudei filósofas mulheres, fossem elas europeias, africanas ou latino-americanas? Por que essas produções não estavam no currículo? Lugar de fala não significa interditar ou impedir alguém de falar. Essa interpretação é uma distorção. O conceito propõe justamente ampliar as vozes reconhecidas como produtoras de conhecimento. A pergunta é: por que apenas aquilo que vem de determinados lugares sociais costuma ser legitimado como saber? Onde estão as produções dos povos indígenas, das mulheres, das mulheres negras? Por que essas perspectivas foram historicamente excluídas?”, questionou.

Dizer que o conceito interdita pessoas é, nas palavras de Djamila, “uma inversão lógica”.

“O que estamos questionando é justamente um interdito que já existe. Se ele não existisse, eu teria estudado durante minha formação filósofas mulheres, pensadoras africanas e outras tradições intelectuais. O fato de essas produções terem sido sistematicamente ausentes já demonstra que determinadas vozes foram privilegiadas enquanto outras foram apagadas.”

A síntese veio em seguida, na frase que atravessa a nova edição: “Lugar de fala não é o que se fala, é de onde se fala”.

Alianças do Sul Global

Djamila encerrou sua fala destacando a importância de fortalecer alianças entre mulheres e intelectuais do Sul Global. Essa articulação aparece de forma concreta na nova edição de Lugar de Fala, que traz prefácio da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, responsável também pela abertura da edição em inglês, publicada pela Yale University Press com o título Where We Stand.

As duas se conheceram em 2022, no Salão do Livro Carioca, onde Djamila mediou a conversa da escritora nigeriana. Chimamanda pediu para encontrá-la dias antes e quis entender como funcionava o mercado editorial brasileiro, já que nunca havia tido acesso a uma autora brasileira. Djamila explicou a dificuldade de tradução enfrentada por brasileiras, sobretudo as de não ficção. Num dos jantares, ao saber que a filósofa lançaria a versão inglesa de Lugar de Fala, Chimamanda pediu seu telefone. No último encontro antes da despedida, disse a Djamila que lhe enviasse a obra pronta, porque queria contribuir. A autora esperava, no máximo, um texto de quarta capa. Em 11 de maio de 2024, recebeu o prefácio.

“Quando cheguei aos Estados Unidos, muitas pessoas me perguntavam, surpresas: ‘Como você conseguiu um prefácio da Chimamanda?’. Minha resposta passou a ser: ‘Porque ela não é americana’. Digo isso porque Chimamanda é nigeriana. Ela sabe o que significa chegar aos Estados Unidos como uma mulher africana, ainda que venha de um país colonizado pelo Reino Unido e seja uma autora de língua inglesa. Nenhuma estadunidense havia se oferecido para fazer algo parecido por mim. Chimamanda, com toda a projeção que tem, foi quem estendeu a mão”, ressaltou.

Ao agradecer pelo prefácio, ouviu de Chimamanda que aquele gesto apenas devolvia algo que ela própria já fazia no Brasil ao publicar, divulgar e criar oportunidades para outros autores e autoras negras. A ideia era manter esse movimento de apoio em circulação.

Essa rede também se manifesta na presença de Grada Kilomba na nova edição. Responsável pela apresentação do livro, a artista e pensadora integra uma relação de parceria que Djamila constrói há anos. Ela conheceu o trabalho de Grada em 2014 e passou, desde então, a contribuir para ampliar sua divulgação no Brasil.

Ao reunir Chimamanda e Grada na nova edição, Djamila reforça uma perspectiva que atravessa sua própria trajetória editorial: criar redes em que intelectuais possam legitimar, apresentar e ampliar o alcance do trabalho umas das outras. Mais do que um gesto individual de apoio, trata-se de construir caminhos coletivos para que produções do Sul Global circulem com mais força dentro e fora de seus países.

Na plateia

Na primeira fila estava a secretária de Educação Básica do Ministério da Educação, Kátia Schweickardt. Ela destacou o modo como Djamila trata questões complexas de forma que as pessoas entendam e se conectem.

“É uma militância muito potente, porque articula o pensamento científico a uma ciência produzida no Sul Global, em diálogo com a tradição clássica, sem abrir mão de afirmar a força das formas negras de existir e produzir conhecimento”, disse, acrescentando: “Raça está profundamente imbricada com classe e gênero, e não há como pensar o país fora dessa chave. Ver Djamila falando para a juventude dá orgulho de ser quem a gente é.”

Cristina Guimarães, assistente social, servidora pública e uma das articuladoras do I Encontro Nacional de Mulheres Negras, realizado em 1988, falou da satisfação de reconhecer, na atuação de Djamila, a continuidade e a ampliação de um trabalho iniciado por gerações anteriores de mulheres negras, agora também fortalecido na academia e na produção intelectual.

Ela lembrou que organizações como Geledés, Criola e o Grupo de Mulheres Negras Mãe Andresa surgiram ou se fortaleceram no processo de mobilização construído a partir dos primeiros encontros nacionais da década de 1980.

“Várias organizações surgiram a partir daquele primeiro e segundo encontro de mulheres negras. Foi uma decisão, éramos na época 400 mulheres. Esse desdobramento que hoje nós estamos vivenciando é resultado de semente plantada lá atrás.”

Jaqueline Nunes, professora de física (e sobrinha de Cristina), conheceu a obra de Djamila por Quem Tem Medo do Feminismo Negro?.

“A gente vive, mas as nossas visões são anuladas. As pessoas acham que é besteira. E com ela eu entendi que não, que é real, que acontece, que a gente tem que lutar.”

André Adriano, professor universitário de anatomia humana, acompanha o trabalho da autora desde 2015. Ele destacou que a presença da filósofa encerrando a programação da Bienal de Brasília supre uma carência da cidade.

“Brasília carece muito desse momento aberto, cultural, de raízes. Fiquei extremamente feliz com algumas falas que a gente não sabia, do trabalho, do contato com outros autores e autoras.”

A sessão de autógrafos que se seguiu à apresentação durou mais de uma hora e meia, com os exemplares à venda esgotados.

De Brasília, a turnê segue para Belém e para o Espírito Santo. Em setembro, passa por Curitiba, Porto Alegre e Recife.

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