
Na Flip, Djamila Ribeiro desmonta distorções sobre lugar de fala e anuncia livro sobre ‘red pills’
Filósofa brasileira lotou a CasaFolha nessa sexta-feira (24), durante a Festa Literária Internacional de Paraty, Flip 2026.
Ovacionada pela plateia, Djamila Ribeiro apresentou em Paraty a nova edição de Lugar de Fala, publicada em junho pela Rosa dos Tempos, do grupo Record. Revista e ampliada, a obra mostra que não existe, no discurso, um lugar neutro ou universal. Ou seja, quando falamos, estamos interpretando o mundo a partir de uma localização social atravessada por relações de raça, gênero, classe e sexualidade.
“As pessoas que deturparam o conceito falam que o lugar de fala é impedir o outro de falar. O interdito já está posto —por que, até 2014, 90% dos livros de filosofia eram escritos por brancos?”, ressaltou.
A ideia, explicou a escritora, é abrir espaços para outras vozes e desnaturalizar privilégios.
“Quando você aponta e marca ‘não, mas você é um homem branco, você tem um lugar social’, eles se incomodam.”
A filósofa brasileira também desmontou a falácia de que o uso de recortes de raça e gênero seria a causa da divisão da sociedade brasileira. Djamila apontou como essa crítica opera por meio de uma inversão lógica, uma vez que as desigualdades são anteriores à sua nomeação.
“Qual poder nós temos para dividir a sociedade? Quase quatro séculos de escravidão dividem a sociedade, o patriarcado divide a sociedade”, lembrou.
Djamila explicou que a estrutura social brasileira já distribui poder e oportunidades de maneira desigual.
“As estatísticas situam as mulheres negras na base da pirâmide social, enquanto os homens brancos permanecem no topo. O que a gente está fazendo é nomeando uma divisão que já está posta e que tem uma tradição que se nega a nomeá-la”, disse.
Para ela, o ato de dar nome a essa realidade é condição para transformá-la.
“Não nomear é negar que o problema existe. De que forma pensar saídas emancipatórias para algo que não tem nome? Se não nomeio que a sociedade é racista – como o Estado brasileiro fez durante muito tempo – de que forma vou criar políticas públicas para a população negra? “, questionou.
A escritora criticou o uso seletivo da expressão “identitário”, ressaltando que, em geral, o termo é aplicado apenas aos grupos historicamente discriminados, como se branquitude e masculinidade não fossem identidades socialmente construídas.
“Identitários são sempre os outros”, observou. “Como se branquitude não fosse uma identidade, como se masculinidade não fosse uma identidade. O problema é que esse sujeito se vê como um universal”, enfatizou.
Retomando o cerne do conceito de ‘lugar de fala’, Djamila observou que sua análise não trata as identidades como categorias fixas. O foco está nas relações estruturais que determinam como essas identidades são mobilizadas pelo poder.
“É uma outra leitura equivocada, porque esse é um debate estrutural. Não me interessa a identidade em si. Me interessa como o poder articula as identidades, oprimindo algumas em detrimento de outras.”
Novo livro
Djamila também revelou que está trabalhando em um novo livro, sobre os chamados “red pills”, movimento online que converte frustrações e buscas por pertencimento em discursos misóginos sobre relacionamentos, poder e papéis de gênero. A ideia partiu da filha, que hoje tem 21 anos.
“Ela me dizia, ‘mãe, você precisa falar sobre isso’. Eu entendi que era importante refletir sobre esse tema, porque a gente percebe o quanto que os pais, os responsáveis e os educadores estão perdidos com esse universo. E o quanto de gente, muito ‘coach’, está capitalizando em cima do ressentimento e da busca por identidade desses meninos.”
O tema já foi objeto de um curso ministrado de forma online para educadores, estudantes, escolas, universidades e instituições públicas e privadas. A formação apresentou ferramentas para compreender a chamada machosfera e enfrentar o avanço do masculinismo entre jovens, especialmente nos ambientes digitais.
[Assista: https://www.youtube.com/watch?v=4Is2UlNQD6Q]
Foto: Rafaela Araújo/Folhapress
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