Djamila Ribeiro celebra reencontro com Grada Kilomba durante passagem da artista por São Paulo

Redação

24 de setembro de 2026

Djamila Ribeiro celebra reencontro com Grada Kilomba durante passagem da artista por São Paulo

Aclamada exposição “O Barco”, no Sesc Pompeia, reúne instalação de 32 metros e obras que abordam escravização, colonialismo, memória e migrações forçadas

Às vésperas da abertura de O Barco em São Paulo, Djamila Ribeiro compartilhou nas redes sociais, na segunda-feira (21), o reencontro com a artista, escritora e teórica portuguesa Grada Kilomba.

“Uma alegria rever e abraçar minha amada Grada Kilomba, que está em SP para a abertura de sua exposição ‘O Barco’, no Sesc Pompeia”, escreveu a filósofa, que encerrou a publicação com um convite direto ao público: “Entrada gratuita. Visitem, apreciem!”

A abertura aconteceu na terça-feira, 22 de setembro, às 19h30, com um diálogo público entre Kilomba e Júlia Rebouças, diretora artística do Instituto Inhotim. Concebida pelo Inhotim e realizada em parceria com o Sesc São Paulo, a exposição ocupa o Galpão do Sesc Pompeia até 25 de outubro e marca a primeira itinerância do projeto para fora do museu mineiro.

Obra escultórica e performática, O Barco reúne 134 blocos de madeira queimada distribuídos por 220 metros quadrados, ao longo de 32 metros. Juntos, eles traçam o contorno do fundo de uma grande embarcação e expõem a arquitetura dos porões em que milhões de africanos escravizados foram amontoados na travessia do Atlântico. Sobre 18 desses blocos, queimados em ritual, a artista gravou em dourado um poema de sua autoria, traduzido para iorubá, kimbundu, crioulo cabo-verdiano, português, inglês e árabe da Síria. Os versos encadeiam alma, memória, esquecimento e ferida.

A obra ganha peso particular no Brasil, já que o país foi o principal destino do tráfico transatlântico. Mais de 4,8 milhões de pessoas escravizadas cruzaram o oceano para o trabalho forçado em território brasileiro. Em março deste ano, a Assembleia Geral da ONU reconheceu o crime como o mais grave já cometido contra a humanidade.

Para Kilomba, a instalação revela o que viajava no fundo dos barcos que monumentos da Europa e da América Latina celebram como emblemas de descobrimento e expansão.

“Esta obra é o inconsciente da nossa história”, disse a artista à Agência Brasil. Ela sustenta que mais de quatro séculos de escravização foram apagados do imaginário coletivo, pouco documentados e pouco estudados, e que uma história mal contada tende a repetir sua barbárie.

A obra também dialoga com Antígona, a tragédia grega que, a partir do conflito entre a protagonista e o rei Creonte, que condena o corpo de Polinices, irmão da heroína, a permanecer insepulto, pergunta quem tem direito a ser sepultado, lembrado e chorado. Na leitura da artista, o oceano é o túmulo de vidas perdidas não apenas na escravização e no colonialismo, mas também em guerras, crises climáticas e migrações forçadas que continuam a lançar corpos ao mar.

Como a instalação é maior que o Galpão, parte dela ficou fora do alcance do visitante, e Kilomba incorporou essa ausência ao sentido da obra: os navios negreiros, assim como os barcos que hoje atravessam as águas em fuga, raramente chegavam inteiros ao destino.

Encomendado pela BoCA – Bienal de Artes Contemporâneas, O Barco estreou em setembro de 2021 às margens do Tejo, na Praça do Carvão do MAAT, em Lisboa. Em janeiro de 2022, ocupou a Plaça Margarida Xirgu, diante do Teatre Lliure, em Barcelona, e, em outubro do mesmo ano, o pátio da Somerset House, em Londres.

No Brasil, estreou no Inhotim, em Brumadinho (MG), onde permaneceu 28 meses em cartaz. Lá, o projeto se desdobrou em três atos: um ensemble português de coro, percussão e balé no primeiro ano, doze artistas mineiros no segundo e, no terceiro, duas obras nascidas da mesma pesquisa, que agora também vêm a São Paulo.

Na videoinstalação Opera to a Black Venus (2024), uma Vênus Negra mítica narra essas histórias; em Compressed Time (2024), a artista propõe um arquivo humano para guardá-las e abrir espaço para novas. Marília Loureiro, que assina a curadoria com Júlia Rebouças, define Kilomba como “uma das vozes mais contundentes de nosso tempo”.

Sobre Grada Kilomba

Nascida em Lisboa, em 1968, de ascendência angolana e são-tomense, Grada Kilomba formou-se em psicologia clínica e psicanálise na capital portuguesa, concluindo doutorado em filosofia pela Universidade Livre de Berlim. A tese deu origem a Plantation Memories, publicado em inglês em 2008, que chegou ao Brasil pela editora Cobogó como Memórias da Plantação: Episódios de racismo cotidiano. O livro foi o mais vendido da Flip de 2019.

A relação com o país é longa: a artista integrou a 32ª Bienal de São Paulo, em 2016, com Illusions Vol. I, Narcissus and Echo, ganhou a individual Desobediências Poéticas na Pinacoteca, em 2019, e voltou à Fundação Bienal como cocuradora, ao lado de Diane Lima, Hélio Menezes e Manuel Borja-Villel.

O vínculo com Djamila também atravessa esse percurso. Em 2016, quando Kilomba esteve em São Paulo a convite do Instituto Goethe, Djamila a entrevistou para o blog da CartaCapital, em texto depois reunido em Quem tem medo do feminismo negro?. Na apresentação, a filósofa conta que Grada figurava nas referências de sua pesquisa de mestrado e que foi emocionante “poder conhecê-la além de sua obra”.

Na conversa, Kilomba sintetizou uma inversão decisiva para o debate antirracista:

“Não sou discriminada porque sou diferente, eu me torno diferente através da discriminação”. Diante do discurso do “racismo reverso”, foi categórica: racismo diz respeito a poder e privilégio, e por isso “é uma problemática branca”.

A apresentação da Coleção Feminismos Plurais cita o trecho em que Kilomba descreve Plantation Memories como um modo de “tornar-se um sujeito”. Em Lugar de Fala, Djamila retoma a leitura da autora sobre a recusa em ouvir. Escravidão, colonialismo e racismo funcionam como segredos mantidos à distância da consciência, e, diante deles, os sujeitos brancos costumam alegar não saber, não lembrar, não acreditar.

O Barco desloca esses segredos do inconsciente para o chão do galpão, expondo o porão das embarcações que os monumentos exaltam como símbolos de glória, e até a parte que não cabe no espaço lembra quem não chegou.

Se o lugar de fala implica, como escreve Djamila, a escuta por parte de quem sempre foi autorizado a falar, o convite com que a filósofa encerra sua publicação no Instagram ganha outro alcance: visitar O Barco é também exercitar essa escuta.

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