Setembro foi mês de despedida de duas personalidades marcantes na trajetória de Djamila Ribeiro

Redação

1 de outubro de 2026

Zélia Amador de Deus e Amelinha Teles foram mestras, referências e exemplos de afeto na formação da filósofa brasileira

Setembro foi mês de despedida de duas figuras marcantes na trajetória de Djamila Ribeiro: a professora e militante dos direitos da população negra Zélia Amador de Deus, e a escritora e ativista dos direitos humanos Maria Amélia de Almeida Teles, a Amelinha Teles.

“Hoje foi para o Orun a amada Zélia Amador de Deus, orgulho do Pará e do Brasil. Professora Emérita da UFPA, fundadora do Cedenpa e responsável pela implementação de políticas públicas fundamentais para as populações negras, indígenas e quilombolas. Referência incontornável”, escreveu Djamila, no dia 8 de setembro, em post no Instagram.

No dia 15, a filósofa brasileira prestou homenagem a Amelinha:

“Quando soube de sua passagem hoje, estava num voo e não contive as lágrimas. Amelinha Teles, que enfrentou a ditadura militar, feminista referência, fundadora da União de Mulheres. Mulher de luta, criou o fundamental projeto Promotoras Legais Populares, dedicou a sua vida pela defesa das mulheres e da democracia.”

Zélia Amador de Deus e os caminhos abertos por Exu

Zélia nasceu em território quilombola, em Mangueiras, no Marajó, e fez da universidade um lugar de disputa. Foi a primeira docente negra a receber o título de professora emérita da UFPA, onde também foi vice-reitora, e ajudou a fundar o Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa), referência na defesa da população negra e das comunidades quilombolas do Pará. Atriz, diretora de teatro e escritora, atribuía sua formação política à avó, que a criou.

Djamila compartilhou detalhes do encontro com Zélia, em 2019, durante a Feira Pan-Amazônica, quando a professora foi a homenageada do evento:

“Ela foi ao meu encontro, conversamos e ela me disse: ‘Djamila, Exu é o senhor dos caminhos. Com sua agressividade, abriu trilhas pela diáspora. Precisamos continuar sendo corpos insurgentes, corpos que incomodam e abrem espaços. Não podemos abaixar a cabeça. Seja agressiva como Exu e abra seus caminhos'”, lembrou Djamila, destacando a importância dessas palavras para a sua trajetória: “Ela me viu, me enxergou, acolheu e deu a direção.”

Djamila lembrou que escreveu duas colunas na Folha de S. Paulo em homenagem a Zélia, uma em 2019 e outra há duas semanas, na data do último encontro com a amiga. Para a filósofa brasileira, ficou a satisfação de ter podido celebrar sua trajetória e homenageá-la ainda em vida:

“Estive com ela há duas semanas, tomamos café da manhã juntas, conversamos, levei flores da cor de Nanã, sua Orixá, tomei sua bênção. Sem saber, foi nossa despedida. […] Hoje, apesar da tristeza, celebro sua vida e existência, cujo legado ficará para sempre. Viva Zélia, nossa herdeira de Ananse, que volta ao barro original de sua mãe, Nanã”, celebrou Djamila.

Amelinha Teles e a formação política de gerações de mulheres

Amelinha Teles representa a articulação entre a defesa da democracia e a luta pelos direitos das mulheres. Presa em 1972, ao lado do marido, César Teles, e da irmã grávida, foi levada pela Operação Bandeirante (Oban), em São Paulo. Décadas mais tarde, uma ação movida pela família Teles levou ao reconhecimento judicial de Carlos Alberto Brilhante Ustra como torturador. A relação entre Djamila e Amelinha atravessou formações na União de Mulheres, encontros feministas e momentos importantes da trajetória acadêmica da autora de Lugar de Fala.

“Como aprendi contigo, Amelinha, você me viu ‘menina’, ensinou tanto, me ajudou a crescer e a enfrentar o mundo. Desde os encontros com seu amado César Teles, às formações na União de Mulheres, aos encontros feministas, a sua presença na minha qualificação do mestrado e seu apoio, quando de um desrespeito que sofri por parte de uma professora da banca, pediu a palavra e disse: ‘Djamila, as militantes gostaram!'”, escreveu a filósofa.

Na militância feminista, Amelinha integrou o jornal Brasil Mulher, participou da mobilização por creches e do ‘Lobby do Batom’, mobilização suprapartidária de mulheres durante a Assembleia Nacional Constituinte de 1987 e 1988. Amelinha também foi figura-chave na idealização das Promotoras Legais Populares, iniciativa de formação sobre direitos e acesso à Justiça voltada principalmente a mulheres das periferias. Sua obra Breve história do feminismo no Brasil também integra as referências mobilizadas por Djamila em sua produção intelectual.

“Tem um quadro seu no Espaço Feminismos Plurais com a frase que nos ensinou tanto: ‘ser feminista é assumir uma postura incômoda’. Por você, seguiremos incomodando. Devemos muito a ti. E te amaremos pra sempre!”, finalizou Djamila.

A memória Zélia e Amelinha se desdobra em ações concretas. No Pará, projeto de lei da deputada estadual Lívia Duarte (Psol), propõe reconhecer a obra literária de Zélia Amador de Deus como Patrimônio Cultural e Imaterial do estado. Já o Auto do Círio, programa de extensão da UFPA do qual Zélia foi uma das fundadoras, dedicou um tributo à docente no lançamento de sua 32ª edição, em 13 de setembro. O evento acontece em 9 de outubro, no bairro da Cidade Velha, em Belém.

Em Franco da Rocha, na Grande São Paulo, a maior turma de Promotoras Legais Populares da Bacia do Juquery se formou em 29 de setembro, com 21 mulheres, em cerimônia que contou com homenagem a Amelinha Teles.

 

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