Universidade de Oxford destaca aula magna de Djamila Ribeiro em sua principal publicação institucional

Redação

23 de dezembro de 2025

Em matéria publicada nesta semana, Oxford reconhece o impacto da filósofa brasileira, que ministrou a tradicional Taylor Lecture, em junho, com base no livro Where We Stand, edição em língua inglesa de Lugar de Fala

A Universidade de Oxford incluiu oficialmente a aula magna proferida por Djamila Ribeiro como um dos eventos de destaque do ano acadêmico de 2025. A palestra, que ocorreu no dia 2 de junho como parte da tradicional Taylor Lecture, foi reconhecida na newsletter institucional Oxford Polyglot, publicada neste mês de dezembro, e ganhou elogios pelo rigor conceitual, potência política e engajamento do público.

A conferência, organizada anualmente desde 1889, teve nesta edição a presença inédita de uma filósofa negra brasileira. O convite partiu do Departamento de Língua Portuguesa da Universidade, e a base da apresentação foi o livro Where We Stand — versão em inglês da obra Lugar de Fala, traduzida pela Yale University Press com prefácio da escritora Chimamanda Ngozi Adichie.

“Sinto o peso e a responsabilidade de ocupar esse lugar como intelectual brasileira negra”, escreveu Djamila à época, em seu perfil no Instagram. Em uma reflexão precisa, ela destacou que a Taylor Lecture foi criada apenas um ano após a abolição da escravatura no Brasil — o que torna sua presença no evento ainda mais simbólica.

A conferência teve lotação esgotada e lista de espera, foi realizada no Trinity College, um dos mais antigos da instituição britânica, e contou com uma audiência majoritariamente feminina. A matéria publicada pela Universidade de Oxford destaca que a recepção calorosa da plateia ficou evidente logo nos primeiros minutos, quando Djamila saudou o público com um “Boa tarde” — prontamente retribuído com entusiasmo.

““Lugar de fala”. Essa foi a expressão familiar e, ao mesmo tempo, enigmática que o público encontrou ao se acomodar para a tão aguardada Taylor Lecture de 2025. Felizmente, porém, estávamos prestes a embarcar em uma jornada fascinante pelos pensamentos e pelos modos de atuação de diversas pensadoras feministas, a fim de compreender o significado desse conceito — conduzidos por ninguém menos que a premiada filósofa brasileira Djamila Ribeiro”, aponta a matéria.

O relato assinala a atuação de Djamila como coordenadora do Instituto Feminismos Plurais, sublinhando o expressivo alcance de sua obra e os recentes prêmios da filósofa brasileira: “É autora de uma série de publicações premiadas e best-sellers, que somam mais de 1 milhão de exemplares vendidos. Mais recentemente, recebeu o Prêmio Franco-Alemão de Direitos Humanos e, em 2021, seu Pequeno Manual Antirracista (2019) venceu a categoria Humanidades do Prêmio Jabuti, o mais prestigioso prêmio literário do Brasil.”

O boletim também enfatiza a urgência de reconhecer como a exclusão de determinados grupos sociais de espaços como a universidade, a mídia e a política institucional os impede de serem ouvidos como sujeitos. O texto observa que Djamila “nos apresentou a uma multiplicidade de pensadoras que, apesar da quantidade prodigiosa, raramente são citadas na Filosofia”.

Uma das passagens mais emblemáticas afirma: “Talvez o aspecto mais admirável tenha sido o modo como Djamila Ribeiro fortaleceu esse mapa vibrante de pensadoras ao enriquecê-lo com suas próprias experiências como mulher negra brasileira”. De acordo com a matéria, essa perspectiva pessoal foi “definidora da conferência e também um dos fundamentos de sua escrita”, gerando identificação imediata entre as jovens acadêmicas presentes.

O texto no site de Oxford descreve que, após a palestra, todas as perguntas feitas à filósofa foram formuladas por mulheres — algo que, frisa o boletim, revela a força do gesto de Djamila em romper o silêncio histórico.

Mais do que um evento pontual, a aula de Djamila Ribeiro passou a integrar a memória institucional da Universidade. Além da publicação no Oxford Polyglot, a instituição adquiriu oficialmente sua obra para o acervo das bibliotecas de Oxford, gesto que a própria Djamila celebrou nas redes sociais: “Fiquei muito feliz por ver tamanho interesse dos acadêmicos”.

Sua presença em Oxford, portanto, não apenas reflete o alcance internacional de seu pensamento, mas reforça a necessidade de revisar quais vozes têm sido sistematicamente silenciadas nas grandes instituições do saber.

A aula magna de Djamila Ribeiro, agora oficialmente registrada, torna-se parte do legado intelectual da Taylor Lecture.

Leia abaixo o texto completo, traduzido para o português brasileiro:

Djamila Ribeiro em Oxford
Uma palestra emocionante de uma das mais importantes pensadoras do Brasil

“Lugar de fala”. Essa foi a expressão familiar e, ao mesmo tempo, enigmática que o público encontrou ao se acomodar para a tão aguardada Taylor Lecture de 2025. Felizmente, porém, estávamos prestes a embarcar em uma jornada fascinante pelos pensamentos e pelos modos de atuação de diversas pensadoras feministas, a fim de compreender o significado desse conceito — conduzidos por ninguém menos que a premiada filósofa brasileira Djamila Ribeiro.

Djamila Ribeiro é ativista, escritora e coordenadora da iniciativa Feminismos Plurais. É autora de uma série de publicações premiadas e best-sellers, que somam mais de 1 milhão de exemplares vendidos. Mais recentemente, recebeu o Prêmio Franco-Alemão de Direitos Humanos e, em 2021, seu Pequeno Manual Antirracista (2019) venceu a categoria Humanidades do Prêmio Jabuti, o mais prestigioso prêmio literário do Brasil. No entanto, após sua recente publicação em inglês, foi seu texto inaugural Lugar de Fala (2017), traduzido como Where We Stand (2024), que ela compartilhou com o atento público de Oxford.

Tendo atuado em diversas instituições acadêmicas, incluindo a Universidade de São Paulo e a Universidade de Nova York, Ribeiro não é estranha ao ambiente universitário. Ao nos cumprimentar com um vibrante “Boa tarde”, imediatamente nos sentimos à vontade em sua presença. Em poucos minutos de fala, ficou claro que ela havia estabelecido a sala de conferências como um espaço de transparência palpável, no qual todas as vozes seriam validadas e ouvidas. Assim, não foi surpresa que, após um breve incentivo de Ribeiro, respondêssemos ao seu cumprimento sem qualquer hesitação, com nosso próprio e entusiasmado “Boa tarde!”.

Sua palestra, na qual buscou esclarecer o significado controverso de “lugar de fala” e dar visibilidade à multiplicidade de vozes negras femininas silenciadas na Filosofia, foi um verdadeiro testemunho dessa busca por visibilidade e verdade. Ao nos conduzir pela tese central de seu livro Where We Stand, Ribeiro apresentou uma diversidade de pensadoras que, apesar de sua expressiva produção, raramente são citadas na Filosofia, sendo frequentemente preteridas pelas vozes brancas e masculinas do pensamento ocidental. Na desconstrução dessa norma eurocêntrica e heteronormativa, Ribeiro evocou nomes e obras de pensadoras como Grada Kilomba, Lélia Gonzalez e Luiza Bairros, todas responsáveis por contribuições relevantes — embora muitas vezes negligenciadas — ao conceito de “lugar de fala”.

Uma parte fundamental dessa filosofia, como destacou Ribeiro, é a teoria feminista do ponto de vista de Bairros, na qual ela identifica a impossibilidade de certos indivíduos estarem legitimamente presentes em espaços como universidades, meios de comunicação e a política institucional como uma das principais razões pelas quais essas pessoas não conseguem ser ouvidas ou reconhecidas como vozes individuais.

Talvez o aspecto mais admirável, contudo, tenha sido a forma como Djamila Ribeiro fortaleceu esse mapa vibrante de pensadoras ao enriquecê-lo com suas próprias experiências enquanto mulher negra brasileira. Essa perspectiva pessoal não foi apenas um elemento definidor de sua palestra, mas também constitui uma base essencial de sua escrita — e é provavelmente devido a essa autenticidade que sua obra é tão valorizada.

Em uma sala repleta de acadêmicos em formação, entre os quais muitas mulheres, esse tipo de representatividade foi profundamente impactante. Pois, embora a contribuição dos filósofos brancos e homens não possa ser contestada (como a própria Ribeiro observou), essas vozes representam apenas uma fração da população.

De forma bastante apropriada, foi a seguinte citação de Jota Mombaça, extraída de Where We Stand, que Phillip Rothwell utilizou para introduzir a palestra:

“O gesto político de convidar um homem cis euro-branco a ficar em silêncio e pensar antes de falar introduz, na realidade, uma ruptura no regime de autorização já em vigor.”

E foi exatamente isso que Ribeiro conseguiu realizar, como ficou evidente na série de perguntas instigantes que se seguiram à palestra — formuladas inteiramente por mulheres. Isso só pode ser descrito como um testemunho da força de Djamila Ribeiro enquanto mulher empoderada e inspiradora, capaz de encorajar outras mulheres ao seu redor a fazer o mesmo.

Não poderíamos ter pedido um início mais memorável para a sexta semana de Trinity, e não há dúvida de que, após os noventa minutos que passamos com Ribeiro, os exemplares de seu livro passarão a sair das prateleiras da Blackwell’s a um ritmo ainda mais acelerado do que já vinham. Agradecimentos especiais não apenas a Djamila Ribeiro, mas também ao Dr. Gui Perdigão, ao Prof. Phillip Rothwell, ao Instituto Camões da Cooperação e da Língua, e a todos os envolvidos na realização desse evento.

Artigos Relacionados


22 de dezembro de 2025

Djamila Ribeiro lança curso online sobre Lugar de Fala. Veja como participar


19 de dezembro de 2025

Livro com posfácio de Djamila Ribeiro marca os 120 anos da Pinacoteca de São Paulo


13 de dezembro de 2025

“Perigo é o machismo impune”: Djamila Ribeiro desmonta lógica inversa da violência de gênero

Sair da versão mobile