Djamila Ribeiro leva o feminismo do Sul global à revista italiana L’Espresso
A presença de Djamila Ribeiro na edição desta semana da revista italiana L’Espresso consolida sua projeção como uma das vozes mais influentes do pensamento crítico contemporâneo. Eleita uma das 100 mulheres mais influentes do mundo pela BBC, Djamila foi entrevistada pelo jornalista Maurizio Di Fazio. A conversa abordou temas como feminicídio, racismo estrutural, linguagem inclusiva e o papel dos feminismos periféricos na transformação social.
Na entrevista, a filósofa brasileira reforça que o objetivo do feminismo negro não é “a igualdade no papel, mas uma transformação radical da sociedade”. Em um momento em que tanto o Brasil quanto a Itália enfrentam índices alarmantes de feminicídio, Djamila denuncia essa forma extrema de violência como “uma barbárie enraizada em sistemas patriarcais e misóginos que desvalorizam a vida das mulheres, sobretudo aquelas à margem”.
A entrevista também marca a republicação, na Itália, do livro Lugar de Fala (Il luogo della parola), com prefácio da escritora Chimamanda Ngozi Adichie e introdução inédita da filósofa Grada Kilomba: “O feminismo é radicado em histórias de solidariedade coletiva”, enfatiza Djamila à revista italiana.

Ela também destaca a necessidade de descolonizar o olhar ocidental e incluir na construção de narrativas e teorias as vozes dos povos que foram colonizados: “Levamos pontos de vista baseados nas experiências vividas por quem foi silenciado”. Ao refletir sobre o ensino dos “Feminismos do Sul”, na New York University, onde lecionou como professora convidada em 2024, a filósofa afirma que os paradigmas do feminismo europeu e norte-americano não podem ser exportados sem consideração pelas realidades locais.
A linguagem inclusiva aparece como uma das ferramentas centrais desse projeto de transformação. Djamila afirma que ela não se trata apenas de gramática, mas de uma forma de moldar o modo como vemos o mundo: “Prefiro usar um vocabulário que inclua e respeite, mesmo que isso me exija mais esforço, porque acredito que é preciso criar pontes, não muros”.
A entrevista também abordou temas políticos. Questionada sobre a presença de uma mulher na chefia do governo italiano, a filósofa refutou a ideia de que representatividade seja sinônimo automático de emancipação. “A emancipação não diz respeito apenas a ser uma mulher no poder, mas ao uso desse poder para promover equidade e justiça”. Ela aponta que Giorgia Meloni, ao se aliar a discursos conservadores semelhantes aos de Jair Bolsonaro, não pode representar qualquer símbolo de libertação feminina: “Reivindicar o patriotismo, atacar políticas para populações vulneráveis e usar vínculos com milícias é o oposto do feminismo”.
Com mais de 1,3 milhão de seguidores nas redes sociais e livros publicados em diversos idiomas, Djamila Ribeiro segue ampliando os horizontes do feminismo negro, forjando um pensamento que une sofisticação teórica e prática política.
Confira a entrevista abaixo, traduzida para o português brasileiro via IA

Djamila Ribeiro, a onda do Sul – A entrevista
Filósofa e ativista brasileira, dá voz ao novo feminismo e à luta antirracista. “O objetivo não é alcançar igualdade no papel, mas promover uma transformação radical da sociedade.”
Descolonizar o olhar, a teoria e as ações para enfrentar os incessantes processos de branqueamento e masculinização da sociedade. Brasileira, pouco mais de 40 anos, formada em filosofia e com mestrado em filosofia política, o nome de Djamila Ribeiro surge com cada vez mais frequência. Ativista negra, escritora best-seller e acadêmica capaz de cativar plateias diversas. Elegante e pop com suas longas tranças, ela é chamada pela ONU e por universidades europeias; tem uma cátedra em “Feminismos do Sul” na Universidade de Nova York (NYU); e foi incluída pela BBC na lista das 100 mulheres mais influentes do mundo. E pensar que ela foi a primeira de sua família a concluir os estudos: sua mãe e avó trabalharam como empregadas domésticas em casas de famílias brancas da elite.
No Brasil — país que aboliu a escravidão apenas em 1888, onde uma pessoa negra é assassinada a cada 23 minutos e onde “o feminicídio é uma barbárie baseada em sistemas impregnados de patriarcado e misoginia, que continuam a desvalorizar a vida das mulheres, especialmente as que estão à margem”, explica a ativista à L’Espresso — sua voz ressoa com força. Com livros (publicados na Itália pela editora Capovolte), conferências em simpósios e favelas, aparições na mídia e apoio material a uma causa complexa, o novo feminismo latino-americano de exportação passa por sua voz clara e firme. “O objetivo não é a igualdade no papel, mas uma transformação completa da sociedade, onde todas as pessoas possam viver com dignidade e liberdade — mulheres e homens.”
Hoje, Ribeiro tornou-se um símbolo. “Eu me vejo como parte de uma onda, e não como uma bandeira solitária. O feminismo é enraizado em histórias de solidariedade coletiva.”
Como no caso da coleção Feminismos Plurais, uma linha editorial e também um espaço físico (Espaço Feminismos Plurais) que oferece apoio a mulheres vítimas de violência doméstica, com serviços psicológicos, jurídicos e de assistência social. “Exploramos os vários aspectos do feminismo. Nosso objetivo foi romper com os véus do silêncio, permitindo que as vozes historicamente excluídas conduzissem a narrativa. Não queríamos mais ser relegadas a notas de rodapé nas antologias. Já publicamos 14 títulos, escritos por mulheres e homens negros. Para nós, esse diálogo não é incomum: se as mulheres não são uma categoria universal, os homens também não são”, afirma.
Para expressar essa necessidade de libertação, a intelectual cunhou o conceito de lugar de fala. “Ele parte do princípio de que todas as pessoas têm o direito de comunicar sua própria experiência, de serem ouvidas de verdade. É um convite à reflexão dirigido a quem tem o privilégio de falar, e um lembrete dirigido àqueles que utilizam as plataformas.”
Ela mesma é ativa nas redes sociais: no Instagram, por exemplo, tem 1,3 milhão de seguidores. “São um meio poderoso de conexão, mas podem também simplificar excessivamente questões complexas. O trabalho vai muito além das telas.” Antirracismo e igualdade de gênero, antipatriarcado e justiça social: na visão de mundo de Ribeiro, esses elementos são inseparáveis. “Essas lutas estão interconectadas. Se enfrentamos um problema de cada vez, estamos apenas colocando um curativo.”
Racismo e sexismo sistêmicos: como romper esse ciclo perverso? “Aprendendo a nomeá-los e adotando medidas concretas para desmontar essas estruturas cristalizadas, combatendo-as em todos os níveis da sociedade.” E isso começa dentro de cada um. “O primeiro passo é olhar para dentro. Examine seus preconceitos, questione seus privilégios, esteja disposto a desaprender. É um processo que exige humildade e consciência.”
Muitos se declaram antirracistas e/ou feministas, mas continuam se beneficiando das estruturas existentes. “Essa é uma questão crucial porque revela a hipocrisia”, acrescenta Djamila. “É desconfortável confrontar nossas próprias cumplicidades. Antirracismo e feminismo não são estilos de vida, algo que se resolve com um post. A questão é viver esses valores de forma coerente, enfrentando os desconfortos e as incertezas da mudança. Não bastam gestos performáticos ou declarações vazias.”
O feminismo contemporâneo, claro, também se debruça sobre a linguagem inclusiva. “Ela é fundamental porque molda a maneira como enxergamos o mundo. A linguagem nunca é neutra. Não se trata apenas de gramática, mas de como o patriarcado se infiltra nas nossas interações cotidianas. A linguagem inclusiva é uma ferramenta, não a revolução em si. E, embora eu respeite seus princípios, prefiro não usá-la em público porque acredito ser essencial comunicar com o maior número possível de pessoas. A linguagem neutra pode erguer mais muros do que pontes.”
Enquanto isso, os “Feminismos do Sul” que Djamila Ribeiro ensina na NYU têm contribuído para despertar a opinião pública de uma visão centrada no Ocidente. “Trazemos pontos de vista baseados nas experiências vividas por pessoas colonizadas, discriminadas e silenciadas. Meu curso questiona as narrativas universalistas do feminismo europeu e norte-americano, destacando que as lutas feministas não podem ser separadas das questões raciais, de classe, da história colonial e da posição geopolítica. A ‘Améfrica’ de Lélia Gonzalez, com suas Américas vistas a partir da perspectiva de mulheres negras e indígenas; o movimento Dalit, que emerge da intersecção entre opressão de casta e gênero na Índia; as feministas africanas. O feminismo ocidental não é rejeitado, mas enriquecido — e forçado a confrontar seus próprios becos sem saída.”
Há poucos anos, Ribeiro dedicou um livro inteiro — Cartas para minha avó — à mãe de seu pai. “O nome dela era Antonia, e ela foi uma profunda fonte de sabedoria, resiliência e amor incondicional. Me ensinou o valor da comunidade, o poder da narrativa e a importância de manter-se firme diante das adversidades. Sua força e perseverança me lembram os sacrifícios feitos pelas mulheres que vieram antes de mim.”
Na Itália, temos uma primeira-ministra mulher: Giorgia Meloni. Ela é um símbolo de empoderamento feminino? “A representatividade é importante, mas não é suficiente. A emancipação não diz respeito apenas a ser uma mulher no poder: trata-se de como esse poder é utilizado para promover equidade, justiça e os direitos de todas as mulheres. A verdadeira emancipação desafia os sistemas opressivos — não os reforça.”
A ativista brasileira diz não conhecer pessoalmente a atual premiê italiana, “mas Jair Bolsonaro, com quem ela parece alinhar-se ideologicamente, está longe de ser um líder que defende a igualdade. Ele reivindica o patriotismo, jura pela bandeira, mas é rápido em vender os bens do Brasil e desmontar políticas voltadas às populações vulneráveis. Sem contar sua retórica armamentista e os vínculos com milícias paramilitares que aterrorizam as comunidades pobres. Se Meloni vê Bolsonaro como aliado, então ela não pode representar qualquer símbolo de emancipação feminina.”
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